terça-feira, 28 de junho de 2016

Não humilhe ninguém, você não sabe o dia de amanhã

O que é estar no topo? É ter conquistado muito dinheiro? É ter comprado coisas caras? O que isso lhe trouxe pra perto? E que tipo de pessoas aproximaram-se de ti? Será que estas pessoas estarão contigo quando mais precisares? Vamos ao extremo. Caso você tenha um AVC e fique de cama por um bom tempo, será que estas pessoas que estão perto de ti no seu auge, estarão contigo nos seus piores dias? Afirmo veementemente que não. Só fica quem gosta muito de você, o resto evapora da noite pro dia. 

Na adolescencia eu era um cara muito popular, pois comecei a trabalhar bem cedo, e diferente da maioria dos meus amigos eu tava sempre com grana no bolso. Me vestia com as melhores grifes, andava bem motorizado (com veículos do meu irão), tinha centenas de "amigos", inclusive uma namorada linda. 

Eu havia me tornado soldado da pátria amada contra minha vontade, pois eu trabalhava em duas empresas durante o dia, estudava a noite, e ainda frequentava o clube nos intervalos de uma coisa e outra, mas a obrigatoriedade do serviço militar na época fez com que adentra-se as fileiras do exercito e por lá permanece-se. Em casa tinhamos duas motos, e eu usava uma direto, e como o quartel era muito cedo, eu ia motorizado pra lá para não perder o horario. Certa feita um cabo pede pra dar umas voltas dentro do quartel com a moto e autorizei, ai depois de algum tempo chega a noticia que o animal tinha saido de dentro da instituição e enfiado a moto de baixo de um caminhão. Lá se foram minhas ações na bolsa e parte de minha poupança para reforma da moto. 

No outro final de semana "amigos" me convidaram para ir numa festa do outro lado da cidade, e como estava a pé, relutei ao extremo para ir em tal evento, mas tanto me encheram que acabei aceitando o convite. Ai tudo começou a dar errado. Pedi a outra moto que meu irmão usava emprestada e ja saiu engasgando logo de cara, mesmo assim saimos. Chegando no ponto de encontro o resto dos amigos, a outra moto pifou, e assim foi uma sucessão de acontecimentos que atrapalhavam nossa ida a tal festa.

Chegando na tal festa acabamos ficando até tarde, e na volta pra casa, os demais do grupo sairam na frente e acelerei um pouco para alcança-los, foi quando passei num buraco e perdi o controle da moto que jogou-se em direção a parede de uma casa. No trajeto meu amigo cai e machuca o braço, e eu tentei dominar a máquina sem sucesso. Resultado: escoriações, um crâneo rachado e uma tibia quebrada. Os rapazes voltaram, chamaram um taxi e ME ENFIARAM de qualquer modo no veículo, fazendo os primeiros socorros que nem a cara deles. Ai o taxista ao invez de me levar para o Hospital Cristo Redentor, aproveitou-se que eu estava inconsciente e nos levou até o Pronto Socorro que era muito mais longe do local do acidente, e ainda na chegada me agride querendo dinheiro pela corrida. Fala sério.

No pronto socorro os caras me pegam como um saco de batatas, fazem uma limpezinha nas escoriações, entalam minha perna e me jogam sob um leito. No decorrer do tempo, minha mãe vem até o hospital e começo a dizer que queria urinar e não conseguia (um desmaio), queria cuspir e não conseguia (outro desmaio) e assim por diante, até o momento que numa inspiração divina ela tira da alça do sutiem, uma joaninha e de pronto espeta meu dedão do pé. Resultado: não estava circulando sangue. Rapidamente ela toma a iniciativa de sair do Pronto Socorro a procura de outro local para fazer um antendimento melhor. Passando na frente do Colégio Militar ela lembra que era ali que eu servia e de imediato foi até a porta. La chegando ela encontra um homem alto e cheio de estrelas, segundo ela. O cara era simplesmente o General Dilermando Carlos de Soares Adler, o qual ordena imediatamente o deslocamente de uma ambulância do próprio CMPA e outra do Hospital Militar - HGPA. Os caras vem, me recolhem e no caminho continuo reclamando, ai chegando no hospital brincam que eu era um soldado e que não podia estar tentando chorar. Foi quando resolveram tirar a tala e quando tomaram um susto, pois minha perna estava toda roxa sem circulação de sanguem por ela Imediantamente mandaram preparar a sala cirurgica onde fiquei quase doze horas sendo retalhado para recuperarem minha perna.

Após várias intervenções cirurgicas para salvar minha perna, e salvaram, mesmo com a cagada de meus amigos, do taxista e do pessoal do pronto socorro, acabei ficando praticamente oito meses baixado no hospital. Nos primeiros dias as filas de visita eram quilometricas, não parava de chegar gente, os dias foram passando, e com os dias a fila ia diminuindo, até se resumir em meus incansáveis pais, as vezes meus irmãos e esporadicamente um amigo que outro. Até minha namorada acabou sumindo, e dela vinham somente notícias, sendo que uma delas informava que ela já estava namorando um famoso paquito do show da xuxa. Muito tempo depois ela apareceu pra me visitar, num feriadão que fiquei praticamente sozinho no hospital, pois a maioria dos baixados tiveram liberação pra ir pra casa, coincidência ou não, a visita dela ocorreu em pleno feriado de finados. Ironia? Não, foram momentos de muita solidão e reflexão.

A sorte que eu estava no hospital militar, onde apareciam dezenas de milicos machucados de todos os cantos do estado, que se sucediam nos vinte e dois leitos da enfermaria. Como não tinham tantos enfermeiros como noutros hospitais, tínhamos que nos ajudar mutuamente, alguns me ajudavam a ir no banheiro, pois eu tinha ambas as pernas detonadas.Eu escovava os dentes dos outros e dava-lhes comida por estarem com braços machucados, e até acabei virando barbeiro da galera.

Nestes tempos difíceis tive um anjo, uma amiga que todos os dias falava comigo ao telefone,  o qual sou muito grato. Eu comprava fichas telefônicas e sempre ligava pra ela pra saber como estava a turma, as festas, minha até então namorada, e tudo mais. Meu anjo chama-se Márcia Pacheco, pois ela foi imprescindível para minha recuperação, não só por ocupar meu tempo e me acalmar, mas também para fazer com que eu quisesse estar nos shows e festas com eles. Essas provocações me levaram a proferir o seguinte lema pra minha vida: "Dez anos a mil. Do que mil anos a dez" (música Décadence avec élégance, Lobão).

O exército me sacaneou, me deram baixa mesmo antes de eu sair do hospital, sai com um perna detonada, sem um puto pila no bolso, e já nos primeiros dias meus melhores amigos INCONDICIONAIS, já me levaram de bengala e tudo para uma festa no Grêmio Náutico Gaúcho, e não parei mais. 

Recuperei minha vontade de viver, andei mais dois anos de bengala, manco até hoje, mas nunca me fiz de vitima, nem usei de minha monoplegia para tirar vantagem em assentos preferenciais, comprar carros com desconto, entrar na fila dos velhinhos, passar em concurso público, etc, pois acho um absurdo privilégios para quem não for severamente afetado por sua condição física ou social, pois acredito que sou como diz na oração do Seicho-No-Ie

"Sou perfeito, alegre e forte, 
Tenho amor e muita sorte! 
Sou feliz e inteligente, 
Vivo positivamente! 
Tenho paz, sou um sucesso, 
Tenho tudo o que eu peço! 
Acredito firmemente 
no poder da minha mente, 
Porque é Deus no meu subconsciente!"

A historia vai longe, mas resumidamente o que fica são os amigos que gostam de você pelo que você é, não pelo status ou bens que você tem. 

Não há tempo que volte, amor. Vamos viver tudo o que há pra viver. Vamos nos permitir (Lulu Santos)

Namastê
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