terça-feira, 5 de janeiro de 2016

As experiências mais gratificantes que tive foram proporcionadas pelas pessoas mais humildes que conheci

Lembro-me como se fosse hoje de um caso especial que acontecia todo final de ano.

Quando criança ficava numa ansiedade só, esperando pelo "Terno de Reis" que aquele senhorzinho fazia nas residências das famílias do bairro. Ele tinha mais de 100 anos de idade, escravo quando criança, era o chacreiro da área onde hoje é a Vila Pantanal, no Morro Santa Tereza. Durante o ano plantava, criava viveres e tinha a companhia de seus fieis escudeiros peludos (cachorros). Mesmo do alto de seu centenário ainda trabalhava vendendo hortifrutigranjeiros, ovos e ainda fazia pequenos serviços para as famílias do bairro. Sua aparência e vestimentas eram exatamente como a imagem do Preto Velho (aquele das estátuas nas floras e casas de religião de matriz africana, ou para os mais antigos, ele era parecido com o Tio Barnabé, do Sítio do Pica Pau Amarelo). No final do ano colocava sua melhor roupa, pegava sua gaita de oito baixos, colocava o palheiro no bolso e saia pelas casas do bairro fazendo cantorias, até chegar na casa do Sargento (seu filho). Era uma alegria só, pois chegava, pedia licença, louvava o menino jesus, fazia sua apresentação e o pagamento era nosso sorriso, e lógico, uma cachacinha e uns quitutes lhe caiam bem.

Este era um de meus grandes presentes de final de ano, pois alem das cantorias ele ainda contava causos e algumas fábulas, coisas que me encantavam demais.

A vida daquele sujeito e suas histórias fizeram parte dos alicerces de minha formação, estancando em mim quaisquer indícios de preconceito com raça, credo e velhice, que pudessem surgir ao longo de minha vida, pois aquele homem humilde que sofrera e lutara tanto, mantinha em si a alegria pela vida, demonstrando em seus singelos gestos, generosidade e gratidão aos que lhe queriam bem, tornando-o para mim um modelo e um dos heróis de minha infância.