terça-feira, 11 de agosto de 2015

meus calçados nostálgicos

Andei descalço, usei sapatinhos de croché, sandalhinhas e botinhas ortopédicas.

Usei havaianas, conga, bamba e kichute.

Usei tênis marca diabo, tênis chulezento de meus irmãos mais velhos e outros que depois de estropiados por eles ficavam pra mim.

Desenhei nos meus tênis yatch e num outro parecido que tinha cadarços.

Comecei a trabalhar aos quatorze anos e finalmente consegui comprar meu primeiro adidas três listras (marathon).

Usei all star, nike e outras marcas, mas logo em seguida comecei com botas west coast.

Achei ter chegado ao topo do mundo quando usei tênis branco com meias brancas tipo jogador de tênis, mas o uniforme ficava ainda mais completo com bermuda branca e camisa polo com um jacarezinho no peito.

Época em que ficar igual aos modelos de revistas masculinas (playboy, homem, penthouse...) era o supra sumo da soberba, pois ficávamos melhores do que éramos, mais bonitos, glamourosos com cara de rico.

Ledo Engano, eu ostentava um status que não era a minha cara, pois eu era bem mais feliz quando eu gozava da simplicidade de minha pré adolescência, pois era o período da minha vida em que tudo era brincadeira e que meninas eram legais somente para brincar de pega-ajuda com a gente. Nem pensávamos que meninas pudessem despertar outras tentações que eram resolvidas com nossas próprias mãos quando olhávamos um seio que se expunha na capa da revista.

Quantas vezes eu retornava do matagal na frente de minha casa com meus kichutes tapados de barro, pega-pegas, bosta de vaca, e lá vinha ela, minha rainha, cuidar mais uma vez de mim e de minhas coisas, época que eu nem dava importância para a preocupação que ela tinha comigo.

Hoje sei o quanto cada gesto simples daquela que me dera a luz era importante. Cada surra que tomei me tornou um homem melhor. Cada bronca uma evolução. Cada carinho era compensado com um sorriso.

Congas lembram-me dos tempos em que meu bairro ainda era área rural, onde tinham agricultores, trabalhadores, contadores de histórias e lendas. Muitas histórias que de vez em quando brotam das profundezas de minha memória, como aquela do preto velho que em todos natais fazia o terno de reis em nossa casa, só para ganhar uma cachacinha e um agrado de nossa família.

Que saudades do meu bamba, momento em que as meninas da escola me olharam com outros olhos, aqueles olhos de ó, ele evoluiu.

Meu kichute me lembra que um dia tentei jogar futebol, ser corredor e saltar em altura. Também lembra dos amigos que nem sei mais quem são, mas que um dia brincaram nos parques da vida. Lembra da goleada que tomamos quando tentamos montar nosso primeiro time de futebol. Eu era tão ruim como jogados que me colocavam no gol ou na reserva, mas na reserva era legal, porque eu onde eu ficava aprontando todas enquanto os mais habilidosos ficam lá a chutar bolas e canelas.

Que nostalgia que meus caçados me trazem, deu até vontade de comprar um kichute, mas o chulé que eu tinha, nunca mais quero ter.

Será que eu era mais feliz quando meus pés não cheiravam bem, quando minhas pernas eram cambitos cheios de feridas, quando minha cara tinha muitas espinhas, e todos os dias eu jantava na presença de meus pais e irmãos?

Não sei, o tempo passou, ele e ela se foram, eles não jantam mais comigo, mas eu continuo a andar, mesmo com outros tipos de calçado sem grifes, mas cá estou para poder registrar que por meus pés já passaram-se calçados, amores, família, caminhos, experiências e hoje são lembranças e saudades de tempos de outrora.