quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Minha geração Coca-Cola

Minha historia de vida é verissímil a de todos amigos que nasceram em suas cidades em ambientes cercados de verde, onde os quadrupedes pastavam nos campinhos de futebol com goleiras feitas de bambu, o qual usavamos alem do futebol básico, também para brincarmos pega-ajuda, esconde-esconde, soltar pião e pipa, fazer fogueiras em festas juninas e mais uma série de coisas que ficaram no passado.

Nossos pais tinham inúmeros empregos para poder sustentar nossas familias, o meu por exemplo acordava as 4 horas da manhã, saia de casa com meus irmãos com 4, 5 e 6 anos para ajuda-lo a distribuir o jornal que circulava na época, depois os deixava dormindo nos bancos dos bondes estacionados para que minha mãe os pegasse posteriormente para leva-los para trabalhar na feira livre. Meu pai assumia sua função de motorneiro enquanto a mãe virava motorista de seu Ford 39 e depois feirante. Meus irmãos vinham pra casa e depois já iam para escola pública, e minha mãe ja ia cuidar das lidas de nossa casa, enquanto meu pai terminava seu expediente no meio da tarde e ainda trazia outros jornais para serem vendidos aos moradores do meu bairro que não tinham como ir caminhando até o centro da cidade, pois os bonde só iam até o bairro Menino Deus, isso mesmo, o Morro Santa Teresa que hoje fica há 10 minutos de carro do centro da cidade, antes ficava há horas. E assim sucedeu-se uma série de dificuldades que sempre foram superadas com muito trabalho.

Nasci 9 anos após e meus pais ainda lutavam para manter a família, meus irmão já trabalhavam e aos 5 anos eu também já ia sozinho para escola que era longe e desenvolvia diversas atividades para poder comprar meus desejos infantis tais como comprar doces e baboseiras. Eu colhia esterco para adubar jardins, colhia ossos, latas e garrafas para vender ao ferro velho, colhia folhagens para vender em vasos de xaxim (se eu soubesse que aquilo era parte de uma árvore jamais teria vendido), colhia ovos nos galinheiros dos vizinhos, ia trabalhar no Armazém do Seu Salvador, ajudando a levar compras e mais uma infinidade de atividades, e isso mesmo, com 5 anos de idade.

Como nasci em 1969 o país já vivia o caos do golpe militar de 64 e meu pai era sindicalista e viviam batendo na porta da minha casa para saber se ele não estava atuando como subversivo, pois ja tinha participado da Campanha da Legalidade e outras tantas. Minha mãe engajada na luta comunitária para trazer calçamento, luz, água, esgoto, transporte e outros serviços básicos para este bairro que era uma fazenda que até tinha pelourinhos horripilantes. Neste ano os americanos apresentaram o engodo do homem ter pisado na lua e meus pais se obrigaram a comprar nossa primeira televisão preto e branco, o qual anos depois, eu e meus irmãos colocávamos papeis celofane de cor para vermos desenhos animados coloridos, hehe. No outro ano o Brasil vence a copa e dezenas de pessoas vieram na minha casa ver o jogo. Assim fui crescendo neste bairro coberto de árvores e plantações, e conforme ia crescendo iam surgindo os medos do mundo. Numa ocasião eu retornava do jardim da infância com meus cachinhos louros e fui parado por um casal que me fez dezenas de perguntas e por sorte meus pais sempre me ensinaram a dizer que eu morava na casa mais próxima. Dias depois fiquei sabendo que dezenas de crianças foram roubadas por vampiros, sim, vampiros que roubavam crianças para roubar sangue.

Nosso bairro era praticamente um quilombo e consequentemente fui criado no meio de negros, e como é de se esperar eu era o branco sujo, o que mais apanhava, e mais uma série de coisas que hoje chamam de bulling. Cresci precisando sempre me defender de inúmeros ataques sucessivos de todas as ordens, e ainda para compensar, minha mãe dizia sempre que se apanha-se na rua apanharia em casa posteriormente, ou seja, apanhava várias vezes.

Minhas roupas e meus poucos brinquedos era o que sobrava de meus irmãos e primos, mas eram muito legais e eu fazia a maior festa quando os ganhava. Na escola eu era obrigado a usar uniforme com um guarda-pó branco ridículo  e os professores já eram ruins naquela época e ainda eramos obrigados a cerrar fileira em continência a bandeira e ao hino nacional todos os dias, e chegávamos a rezar para que chovesse, pois era a única oportunidade que tínhamos para nos livrar da obrigação imposta pelo governo militar, sem falar que no dia 7 de setembro tínhamos que participar obrigatoriamente do desfile cívico militar.

Enfim, queria evidenciar um pouco como foi minha infância para poder comparar a infância dos jovens internetianos pseudo ativistas de hoje em dia, pois nasceram num Brasil onde todo mundo tem televisão, geladeira, computador e até celular, pois no meu tempo, levávamos mais de quatro horas para ir até a pria do Magistério e para telefonar para Porto Alegre ficávamos horas num posto telefônico até que a telefonista conseguisse  linha para falarmos com algum vizinho mais abastado.

Quando adolescente, não podíamos ficar nas ruas até tarde, muito menos ouvir musicas em altos decibéis, pois vinha a Radio Patrulha com dezenas de milicos que desciam baixando o cacete e nos mandando pra casa porque se não seriamos recolhidos para FEBEM. Eu rodei na 8ª série do ensino primário e meu pai me obrigou a começar a trabalhar com carteira assinada já aos meu 14 anos de idade e fiquei apenas uma semana no meu primeiro emprego, em seguida já consegui outro emprego de Office-Boy, e neste período  o Brasil estava em polvorosa e começava a fomentar uma revolução social chamada Diretas Já, e escondido de meus pais e de meus patroes eu estava sempre no meio do tumulto, pois eu estava cansado de ver tanto êxodo rural, militares maltratando meus amigos e familiares e mais um monte de mazelas sociais deste país extremamente atrasado. Era tão atrasado que eu tinha 14 anos e já era alto, e os ônibus tinham o teto tão baixinho que eu já batia minha cabeça.

Eu e o povo brasileiro vencemos e depois de algum tempo Tancredo Neves foi eleito Presidente da República, com  "José Sarney" que era seu vice e recém tinha saído da Arena e se filiado ao PMDB. Coincidentemente Tancredo morreu antes de assumir e bem no dia de comemoração da Inconfidência Mineira, ora, ora, este golpe foi muito maior que o dos militares em 1964.

A inflação galopava e um saco de feijão custava um valor x pela manhã, e a noite já havia subido estratosfericamente, as passagens de ônibus subiam todas as semanas, meu material didático custava o olho da cara, comprar roupas nem pensar, e as favelas no meu bairro cada vez mais. O desemprego batia a porta de todos, e logo comecei a achar alternativas de renda, juntando meu salariozinho minimo que eu convertia em dólares e ia para o Paraguai comprar muambas para re-comercializar e na época era essa a unica maneira de manter-se capitalizado. Eu tinha 14 anos e ia todas semanas sozinho pro Paraguai, nossa! Ou eu era corajoso demais ou um baita dum bundão, nem sei direito.

Nunca mais parei de trabalhar e aprender, em 1989 cai o Muro de Berlim, porem ainda continuando a silenciosamente a Guerra Fria e sou obrigado a servir o exercito mesmo contra minha vontade. Sofro um acidente de moto enquanto sou militar e sou obrigado a ficar baixado no hospital militar por 8 meses até o dia em que descubro que o exercito já havia me dado baixa e eu ainda estava internado, e pior que nem me deram uma aposentadoria ou continuaram meu tratamento me mandando pra casa sem eira nem beira.

Quando saio do hospital, saio decidido a me rebelar com o mundo, chego em casa e meus amigos estão com as bandeiras vermelhas do PT prontas para ir apoiar a candidatura popular do torneiro mecânico LULA, contra Fernando Collor que vence e acaba assumindo em janeiro de 1990 prometendo austeridade, caça aos marajás e o fim das carroças como ele chamava os carros velhos, porem sua excentricidade contraria os demais partidos de oposição que resolvem propor sua deposição e os jovens pelo Brasil afora organizam-se numa nova revolução intitulada Caras Pintadas, fomos lá e vencemos novamente.

Continuei sendo simpatizante do PT (não filiado) e em todas as eleições eu ia fazer boca de urna pro partido   que eu acreditava que ia mudar o Brasil e o Mundo. Eu e meu irmão arrendamos um bar no Bom Fim, berço da boemia de Porto Alegre, onde todo povo underground se encontrava e revoluciona a cultura jovem do pais. Nós vencemos as eleições com o PT e uma das primeiras atitudes deles foi acabar com o bairro boêmio e fechar o Mercado Público onde era nosso estabelecimento comercial. Fecharam porque fizeram uma PPP - Parceria Público Privada com o posto de gasolina da esquina que queria uma loja de conveniencia exatamente onde eram os bares mais movimentados da região, ou seja, a utopia socialista caia por terra abaixo, pois entregavam o bar dos trabalhadores a grandes corporações financeiras e de imediato parei de militar por anos afio devido a tremenda decepção que todos os jovens tiveram na época.

continuarei posteriormente...