terça-feira, 20 de setembro de 2011

Manifestações contra corrupção definem reinvindicações

Há propostas como o fim do foro privilegiado e a promulgação do projeto de lei que caracteriza a corrupção como crime hediondo
Fernanda Nascimento
Em Brasília, manifestantes no protesto contra a corrupção mostram a capa de VEJA com José Dirceu
Em Brasília, manifestantes no protesto contra a corrupção mostram a capa de VEJA com José Dirceu (Ueslei Marcelino/Reuters)
A mobilização na internet se disseminou com tanta velocidade que muitos não sabem que o protesto que inaugurou o movimento ainda nem aconteceu
Uma das poucas semelhanças entre as milhares de pessoas que foram às ruas gritar contra a corrupção no dia 7 de setembro era a indignação com a situação da política brasileira. Alguns saíram de casa revoltados com a absolvição de Jaqueline Roriz, outros queriam transformar a corrupção em crime hediondo e havia até quem pedisse o impeachment de Dilma Rousseff.
Tantos brasileiros, com tantas ideias diferentes, conseguiram reunir-se na mesma hora e local por causa de algumas dezenas de pessoas que tomaram a frente dessa mobilização que nasceu na internet e desembarcou nas ruas em pleno feriado da Independência. Eles negam o rótulo de organizadores – preferem ser chamados de moderadores.
Uns mais politizados, outros nem tanto, esses moderadores acabaram envolvidos neste movimento que, além desta terça-feira, tem mais três datas confirmadas para o próximo mês (dias 2, 12 e 15 de outubro). Desconfiados de que apenas gritar contra a corrupção pode não trazer resultados efetivos, eles resolveram dar uma cara de reivindicação ao movimento.
“Essa é uma fase em que cada um está fazendo seu protesto e, devagarinho, estão começando a colocar ideias dentro da luta”, explica o porto-alegrense Adilson Di, cabeça do movimento que promove outro protesto na manhã desta terça-feira, no Rio Grande do Sul. “Não simplesmente lutando contra a corrupção, mas pelo que querem combater na corrupção”. Algumas capitais definiram seu grito, outras ainda organizam reuniões – que não costumam juntar mais de cinquenta pessoas – para estipular as principais reivindicações.
Em Brasília, a vendedora Lucianna Kalil pretende colher assinaturas durante o protesto, agendado para 12 de outubro, para exigir o fim do voto secreto e a aplicação da lei da Ficha Limpa. Nos outros grupos, há propostas como o fim do foro privilegiado, a revisão dos critérios para aprovação de emendas e a promulgação do projeto de lei que caracteriza a corrupção como crime hediondo.
O princípio - A mobilização na internet se disseminou com tanta velocidade que muitos não sabem que o protesto que inaugurou o movimento no Facebook ainda nem aconteceu. Batizado de “Todos juntos contra a corrupção”, o evento pioneiro está marcado para o fim da tarde desta terça-feira na Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. Criado “sem compromisso”, conta a empresária Cristine Maza, movimentou 200 pessoas na rede social em apenas quatro horas. Uma das organizadoras do protesto, ela espera que a marcha reúna mais de 20 mil pessoas. No Rio, os manifestantes ainda não definiram suas reivindicações. “Não queremos perder o foco inicial, que é juntar gente e fazer o movimento crescer”, diz Cristine.
No dia 7 de setembro, pelo menos 25 mil pessoas saíram às ruas em dezenas de cidades para protestar contra a corrupção. Brasília, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre foram as capitais que mais reuniram manifestantes. Já existem movimentos articulados no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia. No entanto, a mobilização está longe de conseguir compor uma bandeira comum. Para o movimento se tornar um só, ainda há um longo caminho a percorrer.

Manifestações contra o corrupção

O que pensam os moderadores dos principais protestos que se espalharam pelas ruas do Brasil:

PORTO ALEGRE

OAB/RS
ADILSON DI, 42 anos
Quase duas décadas depois de participar do movimento dos caras-pintadas, o consultor voltou às ruas para gritar contra a corrupção. Ao ver os protestos se formando em diversos estados, resolveu criar um evento no Facebook para os porto-alegrenses. Segundo ele, a mobilização reuniu 700 pessoas no dia 7 de setembro e deve crescer ainda mais no dia 20, quando os manifestantes voltam a marchar no feriado em comemoração à Revolução Farroupilha.
Qual o balanço das manifestações de 7 de setembro?
O dia 7 foi um grito nacional. A internet cumpriu o objetivo de dar o pontapé inicial para a marcha contra a corrupção. Conseguimos falar com um grande número de pessoas na rede, que avisaram os amigos, a família. Alguém tinha que dar o primeiro grito e surgiu a oportunidade de todo mundo gritar junto, no mesmo dia.
O que é esperado dos protestos programados para 20 de setembro?
Está havendo uma mobilização muito grande, embora ainda de forma desordenada. Agora é uma fase em que cada um está fazendo seu protesto. Devagarinho, estão começando a colocar ideias dentro da luta, não simplesmente lutando contra a corrupção, mas dizendo o que querem combater na corrupção.
É melhor levantar uma bandeira genérica contra a corrupção ou nomear os políticos corruptos e partidos que deveriam deixar a política e escolher uma causa específica contra a qual lutar?
Muita gente diz que temos que ter um bode expiatório e que precisamos dizer “fora Sarney”, “fora Roriz”, fora não sei quem, mas nós acreditamos que temos que ser contra a corrupção. O objetivo são leis que combatam a má conduta dos políticos.
Qual a solução para a corrupção na política brasileira? A mobilização dos manifestantes pode efetivamente mudar este cenário?
Estamos tentando unificar os grupos em nível nacional, criando redes de discussões. Assim, podemos entregar propostas. Definimos cinco pontos para defender na manifestação do dia 20. Gritamos pela Ficha Limpa, pelo fim do foro privilegiado, pelo voto aberto nas votações do Congresso, pela revisão dos critérios para aprovação de emendas e pela aprovação do projeto de lei que caracteriza a corrupção como crime hediondo.
Os partidos políticos representam a população? Como você os enxerga?
Não representam. Partido políticos são instituições falidas. Eles não têm mais um viés ideológico, não têm nada. Os partidos que hoje estão na base de governo do PT também eram da base do PSDB. Então é tudo a mesma coisa.
Você se sente representado por um partido político, pela UNE ou por alguma outra entidade?
Não. Tenho acompanhado a UNE dizer que estão ajudando, recolhendo assinaturas, mas eles não estão fazendo nada. Foram tomados por partidos políticos.
O Brasil tem jeito?
A gente quer achar um norte, discutir. Primeiro vamos combater a corrupção, que é algo escancarado, generalizado. Agora chega, não dá, algo tem que ser feito.

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