sexta-feira, 31 de outubro de 2003

AS ARMAS MODERNAS E O PODER DA VINGANÇA


Os primatas andavam sempre as espreitas com seus predadores naturais, por milhares de anos fomos herbívoros pelo simples fato de não podermos sair das cavernas para caçar, com o passar dos anos aprendemos a usar nossa força, velocidade e a confeccionar armas, de lá para cá, começamos o tal desenvolvimento e a grande corrida armamentista, coisas que sempre foram usadas para destruirmos uns aos outros.

Em nossa adolescência os hormônios começam a borbulhar, nosso corpo começa a sofrer bruscas transformações, nossos instintos começam a aflorar e aos poucos vamos nos descobrindo. Ainda no aconchego do lar, estamos cômodos sob as asas de nossos progenitores e saímos a explorar territórios alheios, averiguando nos arredores possíveis presas a serem abatidas. Quando partimos para o ataque são vários os alvos e nesta luta insana pela sobrevivência, atacamos todas ao mesmo tempo, mesmo sem tem sucesso em nenhuma das tentativas.

Com o passar dos anos vamos aprendendo a abater uma a uma nossas presas, alguns contentam-se com apenas uma e nunca mais experimentam outras, até chegar o dia que percebem o atraso que tiveram degustando a mesma coisa durante anos, mas os insatisfeitos com a mesmice continuam sua peregrinação sempre em busca de novos sabores.

Há cem anos atrás não se ousava pensar ver as pessoas caçando escancaradamente pelas ruas. Naquela época tudo era camuflado entre vestidos longos, chapéus e muitas anáguas, as armas usadas eram a descrição, piscadas de olhos, bilhetinhos e na maior das ousadias, faziam-se serenatas ano sopé da janela.

Hoje vê-se caçadores por todos os cantos, usando-se de armas potentes e de grande precisão, municiadas com olhares fatais, roupas provocantes, torpedinhos mortais, perfumes arrasadores e até danças bombásticas.

Atirando para todos os lados, saem pelas ruas até acertar suas pobres presas, que iludidas por promessas infundadas, são abatidas e logo em seguida deixadas ao léu, mas o tempo traz fatos novos e inesperados. O caçador é abatido pela própria presa, ficando a mercê de todas as artimanhas elaboradas por ela ao longo de uma vida de submissão e de medo, assim, como nos tempos das cavernas, estes seres mais fracos arquitetaram de forma maquiavélica e com extrema maestria sua vingança a quem sempre lhe perseguiu.

Saíram das sombras e enfrentaram seus grandes desafios. Muitos dos caçadores fraquejaram e deixam-se abater por simples murmúrios ao pé do ouvido ou por um simples toque de sedução.

O tempo é mais perverso ainda, pois o caçador abatido pela presa, já entra na jaula exaurido pelo abate, e com o passar do tempo o desgaste tende a aumentar, e o pior de tudo ainda está por vir. A presa outrora frágil, torna-se uma verdadeira carrasca, usando de todo os artifícios para coibir a possível reação do então predador. Prepara o cárcere a sete chaves, espanta seus antigos comparsas e com muita paciência faz-lhe uma lavagem cerebral, amansa, adestra, alimenta, da abrigo e proteção.

No último século Hiroshima, Nagasaqui e o golfo pérsico sentiram o peso das armas de alta tecnologia, mas nenhuma delas tão poderosa quanto as armas usadas pelas presas caçadoras. Concebidas em ambientes semelhantes aos campos de concentração nazistas, possuem o poder de aniquilamento de proporções jamais vistos. Primeiro vem a conquista, depois a prisão e por fim o aniquilamento com palavras, chantagem, acusações e cobranças, aliadas a olhares de reprovação, ameaças, agressões morais e físicas, e por fim, o desinteresse e a humilhação total, transformando-se em verdadeiros vegetais. Vivos mais inanimados.

Nestes tempos não é muito diferente, ficamos presos em casa comendo vegetais sem ter o prazer de poder abater novas presas e, ainda ficamos destruindo uns aos outros com nossas armas modernas.

Cuidado! Nunca deixe-se abater por estas feras indomáveis, pois seu futuro pode não ser muito promissor.
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